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Encruzilhada de palavras na rota da poesia

 

No livro de poemas Sob o céu de Samarcanda, de Ruy Espinheira Filho, pode-se apreciar uma síntese do trabalho dos poetas E. E. Cummings, Manuel Bandeira e Coral Bracho– já que possui um “modern twist” de tom irônico, imagens delicadas da natureza, e uma linguagem concreta e abstrata. Sob o céu de Samarcanda é uma encruzilhada de sonoridade que vai da tradição clássica à literatura de cordel.

A obra de Espinheira Filho está impregnada de um aspecto mágico, cheio de segredos e possibilidades. O próprio título nos translada à cidade uzbeka de Samarcanda. É ali que, no ano 751, fabrica-se por primeira vez o papel no mundo islâmico. O segredo da fabricação de papel se espalha pelo resto da Europa, e do mundo, imediatamente. E como se fosse pouco esse detalhe, em um dos textos mais exóticos e célebres da literature oriental, As mil e uma noites, a personagem Shahryar é o rei dessa cidade.

Ruy Espinheira Filho usa essa zona fantástica para ilustrar a encruzilhada de tradições literárias e temas poéticos em seu livro, já que a cidade de Samarcanda destaca-se na Ásia Central por ser o ponto intermediário na rota da seda, entre a China e a Europa. O livro é também uma encruzilhada: páginas salpicadas de sonetos e versos livres, de um naturalismo-modernismo contemporâneo, de Khayyam, Bispo dos Santos, Mário de Andrade, Merlin e “anjos, unicórnios, fadas”.

O livro está dividido em três partes. Na primeira parte, “Sob o céu de Samarcanda”, encontram-se poemas escritos entre 2005 e 2009 com temas tradicionais de amor, sonho, memória, tempo e espaço. Na segunda, “Romance do sapo seco”, tem-se um poema dramático, quase autobiográfico, no qual se comete um assassinato para evitar “morrer um sapo seco”. A última, “Sete poemas de outra era”, é uma coleção de prosa transformada em poesia, escrita entre os anos de 1969 e 1975.

O livro está reunido, de uma maneira ou outra, através de um leitmotiv que está no mesmo pulso da lírica: um tom irônico, burlesco. Os seguintes títulos de poemas ilustram o tom brincalhão que une a obra: “Canção do efêmero com passarinho e brisa”; “Canção dos pobres insabidos”; “Soneto do nome”; “Plínio o velho e a nuvem misteriosa segundo plínio o moço, e uma análise de Humberto Eco com breves considerações finais de um poeta seguramente persona non grata”; “Bilhete a Manuel Bandeira”; “Canção que eu gostaria não ter escrito”; “Mais um”; e “A morte e o bom-dia” entre outros. A ironia é a balança adequada para a magia nos poemas.

O mundo mágico de Samarcanda serve como um tecido de seda para experiementar a interação entre um sujeito e seu meio ambiente. Sob o céu leva-nos em uma viagem pitoresca e bem humorada por uma rota histórica, letrada e humana.

Sob o Céu de Samarcanda
Ruy Espinheira Filho
Bertrand Brasil/240 p./35 R$

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